Referências

Exposição ‘Retornar – Traços da Memória’, pela Drª Elsa Peralta

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O que é retornar?

“O plano de repatriamento garantia transporte aéreo a todos os que quisessem sair de Angola até ao dia da independência. As linhas comerciais de voo tinham desaparecido, todos os aviões estavam a encher-se com os milhares de desalojados (…) Nos aeroportos de Nova Lisboa e Luanda (…) milhares de pessoas, novas e velhas, doentes e sãs, dormiam ali; alimentavam-se de frutas, conservas e bolachas; levavam os documentos e as fotografias mais importantes, o ouro e as jóias, quando os tinham, o brinquedo preferido das crianças se fosse fácil de transportar. Gente que trocara um automóvel por um maço de cigarros, que entregara aos criados as chaves de vivendas ricas, que dera milhares em dinheiro angolano por poucas centenas de escudos portugueses, sentia uma resignação cansada.” – o relato está em O País Fantasma, ficção de Vasco Luís Curado publicada este ano.

O momento é também recordado por Isabela Figueiredo no seu Caderno de Memórias Coloniais, publicado em 2009 e que este ano ganhou uma edição aumentada: “1975, novembro. Voos da TAP esgotados há meses, para qualquer destino. Nos dias anteriores tinha havido um corrupio. As malas. Os fundos falsos. As calças de La Finesse verde-alface e amarelo-canário, para o inverno português, tão cinzento e castanho azul escuro. (…) Lourenço Marques esvaziava-se de brancos, ricos e pobres, desde muito antes da independência. Tínhamos ficado para o fim. O meu pai acreditava num reviralho, numa África branca na qual os negros haviam de se assimilar, calçar, ir à escola e trabalhar. Os negros haviam de nos sorrir, sempre, e agradecer o que fizéramos pela sua terra, quer dizer, pela nossa terra.”

Retornar. A carga que esta palavra traz é quase maior do que aquela que veio nos contentores. A antropóloga Elsa Peralta, comissária da exposição, explica que “a palavra retornado foi usada como alcunha, como ofensa, era um termo pejorativo. E, além disso, não é fidedigna, porque muitas das pessoas de que estamos a falar não retornaram para nada porque nunca tinham estado em Portugal. Não queríamos usar a palavra retornado porque não queríamos fixar uma categoria de pessoas”.

Mas, por outro lado, a palavra existe e é institucional, havia o IARN que era o Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais. “Não podemos fugir a esta palavra porque corremos o risco de ninguém saber do que estamos a falar.” A solução passou por transformar o nome em verbo – “Este retornar é um exercício de todos, os que vieram, os que nunca tinham vindo, os que ficaram, nós que estamos hoje aqui a pensar nisto.”

É um exercício que a investigadora anda a fazer há alguns anos, procurando estes testemunhos. “Não é fácil, porque ainda hoje, há muitas pessoas que não querem falar”, diz. ” Falo com as pessoas e todas têm uma memória muito afetiva, muito pessoal, forte, disto tudo, mas depois parece que há um tabu, não querem falar.” Elsa Peralta insiste. Vai conquistando a sua confiança. Volta uma e outra vez. Sempre que possível, grava essas conversas com um gravador (ainda pensou utilizar uma câmara de vídeo mas rapidamente desistiu da ideia uma vez que intimidava os entrevistados), mas muitas delas não estão sequer registadas. Consulta fóruns de pessoas que estiveram em África, vai aos almoços e aos encontros, uns apresentam outros. Neste momento, tem 45 testemunhos registados (entre os quais estão os 12 destacados na exposição) e muito outro material.

“Esta é uma exposição sobre a memória. Não estamos aqui a fazer história.” Claro que existe uma contextualização histórica através dos recortes de jornais e outros materiais que compõem um dos núcleos da exposição – em gavetas de arquivo, que os visitantes terão de puxar e manipular, é possível viajar até África com os primeiros colonos, idos em campanhas de povoamento no final do século XIX, ou na grande vaga após a Segunda Guerra Mundial. “Para perceber a vinda é preciso, primeiro, perceber a ida”, diz Elsa Peralta. Mas também é possível ver como foram noticiados o 25 de abril, as independências e o movimento de retorno, na altura, nos jornais de Lisboa e das colónias. E, por fim, viajar um pouco por alguns dos documentos do arquivo do IARN que se encontram, encaixotados, no Arquivo Histórico Ultramarino, sem nunca terem sido estudados ou tratados. Um arquivo, como as memórias, ainda por explorar.

A história está lá, como pano de fundo, mas o que interessa a Elsa Peralta nesta exposição “é falar com pessoas concretas e perceber o que é que elas recordam, o que é que ficou nelas daquele acontecimento. E isso é um risco, porque muitas vezes aquilo que as pessoas recordam é contrário ao que o historiador define como verdade.”

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in http://www.dn.pt/artes/interior/retornar-ou-seja-tornar-vivas-as-memorias-que-temos-de-africa-4868938.html

Para mais informações sobre esta exposição ver também: http://www.egeac.pt/evento/retornar-tracos-de-memoria/

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Referências

Livro ‘O Retorno’ de Dulce Maria Cardoso

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Sinopse:

1975, Luanda. A descolonização instiga ódios e guerras. Os brancos debandam e em poucos meses chegam a Portugal mais de meio milhão de pessoas. O processo revolucionário está no seu auge e os retornados são recebidos com desconfiança e hostilidade. Muitos nao têm para onde ir nem do que viver. Rui tem quinze anos e é um deles. 1975. Lisboa. Durante mais de um ano, Rui e a família vivem num quarto de um hotel de 5 estrelas a abarrotar de retornados — um improvável purgatório sem salvação garantida que se degrada de dia para dia. A adolescência torna-se uma espera assustada pela idade adulta: aprender o desespero e a raiva, reaprender o amor, inventar a esperança. África sempre presente mas cada vez mais longe.

in https://www.wook.pt/livro/o-retorno-dulce-maria-cardoso/12835915